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Eventos debatem educação a distância, práticas educacionais mediadas por tecnologia e educação especial em uma perspectiva de inclusão

A Universidade Estadual Paulista (Unesp) está com inscrições abertas para dois eventos integrados sobre Educação Inovadora e Inclusiva. O VI Simpósio de Educação Inclusiva e Adaptações (SEIA) e o IV Simpósio Internacional de Educação a Distância (SIEaD) acontecerão, simultaneamente,  entre os dias 21 e 24 de maio, em Presidente Prudente, no interior paulista, nas dependências da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp. 

Além dos seminários presenciais, haverá uma etapa virtual, com transmissão ao vivo e online de duas palestras de pesquisadores internacionais, nos dias 11 e 12 de maio.  Os simpósios são organizados pelo Centro de Promoção para a Inclusão Digital, Educacional e Social (CPIDES) e pelo Núcleo de Educação a Distância (NEaD) da universidade.

Especialistas do Brasil e do exterior ministrarão cursos de curta duração, oficinas e palestras e participarão de mesas-redondas. Estudantes e profissionais da área terão a possibilidade de vivenciar e compreender novas estratégias educacionais. Também poderão conhecer, analisar e discutir as atuais abordagens políticas, científicas, gerenciais e de ensino e aprendizagem.

Até o dia 20 de fevereiro, interessados poderão submeter trabalhos para apresentação nos formatos de comunicação oral ou pôster. Ao final dos eventos presenciais, os melhores trabalhos serão premiados com a entrega de um troféu e a publicação na revista eletrônica do NEaD/Unesp, a InFor – Inovação e Formação.  As inscrições e submissões devem ser feitas no site https://sigeve.ead.unesp.br/siead2017

Educação Especial e Inclusiva

              O propósito do VI Simpósio de Educação Inclusiva e Adaptações é viabilizar o diálogo sobre a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, promulgada em 2007 pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) do Ministério da Educação (MEC). “Incluir é considerar a diversidade humana e valorizar as diferenças. Isso significa que, para a real participação e aprendizagem de todos no ambiente escolar, é necessário oferecer não apenas o acesso ao sistema, mas os meios e métodos mais adequados a cada estudante para o aproveitamento total do que é oferecido”, pondera a professora Elisa Tomoe Moriya Schlünzen, coordenadora do CPIDES e líder do grupo de pesquisa Ambientes Potencializadores para Inclusão da FCT/Unesp.  

             Os meios e métodos citados pela especialista são temas do seminário, com orientações para o desafio da implementação, adequação e aprimoramento das políticas federais nos âmbitos estadual e municipal. Especialistas mostrarão técnicas para acessibilidade, o ensino e a aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial (pessoas com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento e com altas habilidades/superdotação).  “Vamos abordar práticas pedagógicas específicas para facilitar o desenvolvimento e interação social desses alunos. E explorar o uso de diferentes recursos de Tecnologia Assistiva, inclusive em Ambientes Virtuais de Aprendizagem empregados na Educação a Distância”, informa a professora.

Educação a Distância e mediada por tecnologias

           Os dois eventos ocorrem concomitantemente porque estão estreitamente relacionados. A Educação a Distância e o uso educacional das tecnologias digitais reduzem barreiras espaciais e temporais; estimulam e potencializam a articulação de conhecimentos interdisciplinares; valorizam a interação, colaboração e autoria durante o processo de aprendizagem.  O IV Simpósio Internacional de Educação a Distância objetiva formar os educadores para o domínio desses conhecimentos com uma visão inclusiva. “Os novos modelos de comunicação quebraram paradigmas e exigem a reestruturação dos processos educacionais de todos os estudantes, inclusive do público-alvo da educação especial”, ressalta o professor Klaus Schlünzen Junior, coordenador do NEaD. “Do ponto de vista da inclusão, é impossível deixar de lado a possibilidade de ensinar sem exigir deslocamento físico, que muitas vezes é um problema para pessoas com deficiência, ou de propiciar maior acesso a materiais didáticos por meio de tecnologia assistiva no meio digital, como legendas e audiodescrição em vídeos educacionais”, defende.

          Entre os temas do simpósio, estão: Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação, o smartphone como ferramenta didática, aprendizagem baseada em problemas, aprendizagem  orientada por projetos, gamificação  e comunicação aumentativa e alternativa.

 

 

 Professora conta como a experiência mudou sua visão e mostrou a importância do curso de especialização em Altas Habilidades/Superdotação

Os estágios em escolas têm sido avaliados positivamente pelos educadores que participam dos cursos de especialização em Educação Especial do Núcleo de Educação a Distância (NEaD) da Unesp. Atualmente, dois cursos estão em andamento, realizados em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo: um com ênfase em Deficiência Auditiva/Surdez e outro com enfoque em Altas Habilidades/Superdotação.

No modelo híbrido (a distância com encontros presenciais), os cursos possuem carga horária de 360 horas e são destinados aos professores dos ensinos Fundamental II e Médio da prefeitura. Entre as atividades exigidas, estão estágios de 10 a 20 horas, relacionados a disciplinas específicas. Eles desempenham um importante papel no aprendizado, por permitirem a contextualização dos temas trabalhados e possibilitarem ao professor-cursista a construção do próprio conhecimento a partir de situações reais. “Nos estágios, esse professor depara-se com problemas ou desafios e deve planejar estratégias para superá-los, aplicando os conceitos debatidos com seus tutores. Nesse processo, além de aprender, ele enxerga a relevância do conhecimento e vê sentido em aprimorá-lo”, explica o professor Klaus Schlünzen Junior, coordenador do NEaD/Unesp. 

Os cursistas enviam constantemente aos seus tutores relatos reconhecendo o valor dessa experiência. É o caso da coordenadora pedagógica Fernanda Barreto Conceição André, participante do curso de Altas Habilidades ou Superdotação , que contou como o estágio da disciplina Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação contribuiu para sua formação.  “O resultado desse trabalho foi muito gratificante, pois permitiu que eu saísse da teoria para vivenciar o curso na prática”, constata.

 Após aplicar instrumentos específicos de avaliação, Conceição encontrou dois estudantes do ensino fundamental com indicadores de altas habilidades ou superdotação. “Como a unidade escolar na qual trabalho está inserida em uma área de extrema vulnerabilidade, em um contexto dificílimo, não imaginei que isso fosse possível”, confessa.  A aluna Natália de Araújo Cilistino, de 8 anos,  foi selecionada para participar dos processos norteados pelo estágio da professora, que objetivou aprimorar e estimular o talento da estudante para a escrita e leitura. “Apresentei a ela o site Story Jumper, que permite a criação e o compartilhamento de livros. Seus olhos brilharam diante da proposta de escrever histórias e divulgá-las nesse formato! Ela fez vários livros por conta própria e foi orientada por mim na construção de outro sobre convívio e diversidade”. 

Novos horizontes

Natália curtiu a experiência e acabou escrevendo mais de 10 livros. Ela também gosta muito de ler, principalmente clássicos infantis, e procurou conhecer outros livros publicados no site.  As atividades desenvolvidas estimularam a estudante a planejar seu futuro: “Quero estudar na Unesp e me tornar ‘professora de leitura’”.

 Para Conceição, os resultados obtidos com a aluna são a prova de que o curso de especialização não se refere a teorias, e sim à realidade. “Percebi a importância e a urgência de identificarmos e ofertarmos oportunidades de enriquecimento para estudantes com altas habilidades ou superdotação. Não podemos deixá-los invisíveis, pois seus sonhos, sua capacidade e talento devem ser incentivados e valorizados de maneira que se realizem pessoal e profissionalmente”. A professora tem compartilhado os conhecimentos que adquire no curso de especialização com seus colegas, no intuito de identificar e trabalhar com outros estudantes.

Conheça um dos livros produzidos pela estudante: https://goo.gl/QTPGVn

Saiba mais sobre a importância dos estágios na formação dos cursistas da Educação Especial:

Cursistas avaliam positivamente estágio da Especialização em Educação Especial da Unesp

 

Déborah Zaduzki, doutoranda da FCT/Unesp e professores Elisa Tomoe Moriya Schlünzen e Klaus Schlünzen Junior, do NEaD e do Departamento de Estatística da FCT/Unesp
     “Concorremos com as melhores universidades do planeta e fomos reconhecidos. Com todas as dificuldades de nosso país, acredito que fizemos bastante. E vamos em frente, porque ainda há muito a fazer”.  Emocionado, Klaus Schlünzen Junior, coordenador do Núcleo de Educação a Distância (NEaD) e professor do Departamento de Estatística da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp , comemorou o bronze, entre as universidades da América Latina, no prêmio Reimagine Education 2016.
      Organizado pela  University of Pennsylvania, dos Estados Unidos, o prêmio visa identificar as abordagens mais inovadoras no ensino superior para melhorar a aprendizagem e a empregabilidade dos estudantes.  Intitulado Accessibility and Inclusion in Higher Education: Digital Information and Communication Technologies and Assistive Technology, o trabalho premiado descreve as ações do NEaD em conjunto com o  Centro de Promoção de Inclusão Digital, Educacional e Social (CPIDES) da FCT/Unesp.  Ele  detalha as tecnologias empregadas para a construção de ambientes virtuais de aprendizagem acessíveis ao público-alvo da educação especial (pessoas com deficiência visual, auditiva, intelectual ou física; com transtornos globais do desenvolvimento ou com altas habilidades/superdotação). E também as metodologias pedagógicas associadas a essas plataformas educacionais, visando à inclusão e o desenvolvimento de todos os estudantes. 

   “Destacamo-nos em meio a outros excelentes projetos de renomadas instituições, como o Instituto Tecnológico de Monterrey e as universidades de Stanford, Princeton, Berkeley e Johns Hopkins. Estamos no caminho certo e sabemos que temos muito a avançar”, avalia Elisa Tomoe Moriya Schlünzen, especialista em educação inclusiva do NEaD e professora do Departamento de Estatística da FCT/Unesp. 

     Os 120 projetos finalistas foram apresentados nos dias 5 e 6 de dezembro, na Filadélfia, nos Estados Unidos, durante a conferência Reimagine Education 2016. Um grupo internacional de 40 juízes escolheu estas propostas entre, aproximadamente, 600 enviadas para concorrer à premiação.  

A metodologia que se destacou internacionalmente

     O NEaD e o CPIDES trabalham trabalham pela inclusão e acessibilidade mediante a educação presencial, híbrida ou a distância. Para proporcionar um processo de aprendizagem compatível com o estudante do século XXI, ambos associam o uso de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) a uma abordagem pedagógica Construcionista, Contextualizada e Significativa (metodologia CCS). “As novas tecnologias permitem o estabelecimento de redes de comunicação que podem potencializar as qualidades dos seres humanos e desenvolver suas habilidades e competências”, explica o professor Schlünzen.

     “Estas mesmas tecnologias auxiliam o estudante a aprender por meio do desenvolvimento de um projeto específico, com mediação do professor. Assim, esse estudante constrói o próprio conhecimento, contextualizando-o de acordo com sua realidade e vivenciando a aplicação de conceitos durante a resolução de problemas de seu interesse, o que confere significado à aprendizagem”, completa. Junto à metodologia CSS, está a abordagem Estar Junto Virtual, que evidencia a importância da ação do professor, acompanhando as atividades do estudante, interagindo com ele e auxiliando-o na construção do conhecimento. 

     Quando o objetivo é a inclusão efetiva e o desenvolvimento dos estudantes público-alvo da Educação Especial, soma-se, às estratégias citadas, outro recurso: a Tecnologia Assistiva, presente nos Ambientes Virtuais de Aprendizagem do NEaD/Unesp. São elas que permitem aos estudantes com deficiência auditiva assistirem aos vídeos educacionais com legendas e Língua Brasileira de Sinais (Libras), enquanto aqueles com deficiência visual podem contar com a audiodescrição  e/ou com ajustes que facilitam a visualização das letras e imagens (no caso de estudantes com visão subnormal). As plataformas educacionais são autoconfiguráveis, possibilitando que o usuário as adapte de acordo com suas necessidades.

      “Em todos os cursos que oferecemos, visamos romper as barreiras causadas pela inadequação de ambientes digitais, materiais didáticos e metodologias pedagógicas”,  enfatiza a professora Elisa Schlünzen. Ela ressalta outra importante missão do núcleo: “nossa meta é expandir essa educação acessível a todo o país, seguindo os princípios do Desenho Universal. Por isso, investimos na formação de professores, oferecendo-lhes conhecimento sobre como ensinar de maneira inclusiva, desde a educação infantil até a superior”. 

Parcerias e resultados 

     O NEaD atua em parceria com o CPIDES da FCT/Unesp, que desen  volve pesquisas e cursos voltados ao monitoramento e formação de estudantes da Educação Especial de diversas faixas etárias, assim como forma professores para o trabalho com esse público-alvo . De 2007 a 2013, houve a formação de 5832 professores de 25 estados brasileiros, em nível de aperfeiçoamento, por meio de seis edições do curso Tecnologia Assistiva, Projetos e Acessibilidade: promovendo a inclusão. 

     Juntamente com a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), o NEaD formou 992 professores na primeira edição do Curso de Graduação Semipresencial em Pedagogia. No momento, a segunda edição do curso está em andamento, em uma realização conjunta com a Universidade Aberta do Brasil. Em 2017, haverá a terceira edição. 

     Através da Rede São Paulo de Formação Docente (Redefor)  da Secretaria de Estado da Educação, o núcleo realizou sete cursos de especialização em Educação Especial e Inclusiva, com  1.600 vagas para professores e gestores do estado. 

     Os resultados não se medem apenas por números, mas por mudanças em políticas públicas decorrentes da colaboração do NEaD com órgãos estaduais e federais, pelo depoimento dos cursistas e pela solicitação de novas parcerias por parte universidades e institutos educacionais.  

 

 

Nesta entrevista, o professor David Rodrigues aborda os principais aspectos de uma universidade inclusiva. Especialista em Educação Especial e professor titular da Universidade de Lisboa, em Portugal, David Rodrigues também é Conselheiro Nacional de Educação e presidente da Associação Nacional de Docentes de Educação Especial.

Parte desta entrevista foi publicada no Caderno Fórum do Jornal da Unesp de novembro de 2016, cujo tema foi Inclusão no Ensino Superior. 

NEaD/Unesp – Por que tornar as universidades inclusivas é tão importante atualmente?

As estatísticas internacionais mostram que houve, generalizadamente, um aumento percentual de estudantes no ensino superior, que adquiriu uma função mais próxima da formação profissional e menos de aprimoramento de elites.  A extensão da idade de frequência escolar obrigatória (por exemplo: em Portugal, até 18 anos) torna mais fácil esta transição para o ensino superior e, cada vez mais, jovens consideram que a sua formação profissional deve incluir esse ciclo.  Considerando que o ensino superior valorizou a sua vertente profissionalizante e se democratizou através do acesso de pessoas para as quais, ainda há pouco tempo, a universidade era uma miragem, faz todo o sentido falar em inclusão no ensino superior. Não é razoável nem socialmente justo que cidadãos sejam privados da sua formação profissional e do prosseguimento dos seus estudos em função de condições de deficiência que, se forem atempadamente acauteladas, é possível ultrapassar, de forma que todos os estudantes tenham, além do acesso, condições de sucesso educativo.

NEaD/Unesp - O que significa, afinal, incluir pessoas com deficiências no Ensino Superior? 

Significa, fundamentalmente, identificar e abolir as barreiras ao acesso, à aprendizagem e ao sucesso que estas pessoas possam ter. Há pouco tempo, em uma conferência no Brasil, referi-me a “barreiras à aprendizagem” e alguém me respondeu, surpreendido, que pensava que as barreiras eram só arquitetônicas e que tudo se resumiria a mudanças no espaço físico.  Na verdade, essas são as mais visíveis, mas não são as únicas.  Muitas vezes, encontramos barreiras à aprendizagem que são criadas pelos próprios professores e pela organização dos cursos. Por exemplo: um docente universitário que saiba apresentar os conteúdos de formas diferenciadas (e não só de uma maneira, por melhor que a considere) tem muito mais oportunidade que o seu ensino chegue a todos os estudantes. A identificação das barreiras que cada estudante pode apresentar para aprender é fundamental para as sabermos eliminar. E este é um bom tema de reflexão para os professores. 

Incluir pessoas com deficiência no ensino superior implica também que se promova um clima de aprendizagem exigente, mas ao mesmo tempo de apoio. Se deixarmos os estudantes com deficiência “passarem de qualquer jeito”, vamos prestar-lhes um mau serviço.  Incluir, neste sentido, é levar o estudante a desenvolver ao máximo o seu conhecimento, as suas possibilidades de interação e participação social.

NEaD/Unesp - Quais fatores devem ser levados em conta em um processo de inclusão? 

Um processo de inclusão não pode ser “paternalista”. Há palavras que são bem diferentes de inclusão e que desvalorizam a plena participação e responsabilização do estudante: tolerância, caridade, “especial”, assistência. É importante que as condições que cada um necessita para o sucesso sejam proporcionadas atempadamente e numa lógica de cumprimento dos direitos educativos dessa pessoa. Usar uma linha Braille para uma pessoa com deficiência visual ou proporcionar a interpretação de LIBRAS para uma pessoa com deficiência auditiva não é tolerância ou uma benesse, mas sim a expressão de um direito.

Os alunos com uma condição de deficiência devem, como os demais, ser ouvidos pelas instituições sobre as suas necessidades e os seus projetos de vida.  

NEaD/Unesp -Quais práticas pedagógicas devem ser adotadas para proporcionar iguais oportunidades de aprendizagem às pessoas com deficiência? 

Não é possível dar uma resposta unívoca a esta pergunta. Genericamente, direi que qualquer melhoria no processo de ensino beneficia todos os alunos, incluindo certamente, aqueles com deficiência.  Dou-lhe um exemplo verídico: um professor de uma faculdade de engenharia recebeu um aluno cego. Perplexo, perguntou-lhe o que é que ele precisava para seguir as suas aulas (começou bem este professor…). O aluno pediu ao professor que lhe mandasse antes da aula a apresentação em Power Point a ser apresentada – assim, poderia estar mais familiarizado com o conteúdo.  O professor fez isso e, passado algum tempo, pensou: “e se eu enviasse o Power Point a todos os alunos?”. E assim fez, com grande sucesso.  Este é um exemplo de como uma mudança feita inicialmente para um estudante com deficiência pode vir a beneficiar todos os outros estudantes.

NEaD/Unesp – Qual a importância das tecnologias educacionais nas práticas pedagógicas inclusivas? 

Hoje não é concebível falar de ensino sem referir à poderosa interseção que existe com as Tecnologias Digitais. Estas tecnologias, como todas as outras, não são indiscutíveis nem de sentido único: podem servir para objetivos opostos. Elas podem servir para a inclusão? Claro: já servem. Por exemplo: permitem a estudantes com diferentes capacidades serem úteis na execução de um trabalho de grupo. Por outro lado, dão voz e amplificam visões alternativas da aprendizagem, que serão úteis a todos.  Existe uma ética ligada às tecnologias educacionais: elas devem ser acessíveis e úteis a todos os alunos, sem excluir nenhum.

NEaD/Unesp – Quais os principais equívocos dos docentes e gestores ao lidar com o público-alvo da educação especial? 

Salientaria 3 deles. O primeiro é pensar que, pelo fato de o aluno ter uma deficiência, ele “é” deficiente, isto é todos os seus comportamentos são inabituais e diferentes.  Ter uma deficiência – falamos em “condição de deficiência” porque ter esta condição é como ter outra qualquer (gênero, etnia, nacionalidade etc.) – não significa que todos os domínios do comportamento da pessoa fiquem afetados. 

Em segundo lugar, há um equívoco de que esta pessoa precisa de muito e permanente apoio.  O apoio deve ser exclusivamente o necessário e, sobretudo, aquele que é entendido como essencial pela pessoa.  O apoio espetacular, permanente e excessivo pode ser um fator de exclusão e, sobretudo, uma barreira para que a pessoa com deficiência participe na vida social.

Finalmente, precisamos manter altas expectativas sobre as possibilidades de aprendizagem do aluno. Estas expectativas têm que caminhar juntamente com o apoio necessário para que cada aluno possa desenvolver o seu potencial. 

Um professor ou um gestor não deve esquecer que as dificuldades não são exclusivas dos alunos com deficiência. Frequentemente, eles dão origem à inovação, a ambientes e a experiências extremamente úteis para todos e que, sem eles, não existiriam. Lembro-me de um estudo publicado em 2014 pelo Instituto Alana¹ do Brasil em que se demonstra que as pessoas com Síndrome de Down dão importantes contribuições à saúde organizacional das empresas em que estão colocadas.

NEaD/Unesp – Como avaliar se o aluno com deficiência possui todas as condições para desenvolver o mesmo nível de aprendizado que os demais alunos? 

Nenhum aluno desenvolve o mesmo nível de aprendizado que outro.  Mesmo que ele dê a mesma resposta em um teste escrito, ele aprendeu diferente e sabe diferente. Faz, sim, sentido que, quando um aluno com deficiência entra no ensino superior, a comunidade acadêmica – com ajuda de pessoas experientes neste campo – estude qual o perfil de aquisições que ele deve fazer para poder terminar o curso, bem como quais as adaptações e os apoios que precisa para isso. Dou um exemplo: quando pensamos que um paraplégico não pode ser engenheiro civil por não poder acompanhar obras, devemo-nos perguntar se todos os engenheiros civis andam de capacete em cima dos andaimes. Descobrimos que não: muitos fazem trabalho como projetistas e em muitas outras funções.  Devemos manter um diálogo constante e próximo com o estudante para que ele próprio vá calibrando o seu projeto e seja também implicado no seu percurso e na sua aprendizagem.

NEaD/Unesp - No evento TEDx LiboaED, em 2014, o senhor apresentou 5 utopias para a educação e os caminhos para aproximar-se delas. Quais seriam as utopias em relação à Educação Superior, para que seja realmente inclusiva? 

Antes de qualquer coisa, a educação superior já fez um longo caminho. Esta entrevista, há 20 anos, teria sido… improvável. Andamos muito e temos mais para andar. Acho que, antes de tudo, é preciso falar mais de aprendizagem no ensino superior. Vivemos, ainda, e muito, com base em modelos de ensino transmissivos, em que o papel do estudante é muito passivo.  Hoje, sabemos que é possível fazer muito melhor, inovando a forma como os nossos estudantes aprendem: o trabalho de projeto, a “sala de aula invertida”, novas formas de motivar e de aprender estão cada vez mais presentes nas nossas salas de aulas.  Mas precisamos falar mais da forma como se deve ensinar para que todos possam aprender.

Outra questão tem a ver com o esforço que temos de continuar a fazer para que o ensino superior não se afunile.  Estudos mostram que as universidades cada vez mais negligenciam os conteúdos humanísticos e organizam-se como se o ensino superior fosse uma simples aquisição de conhecimentos tecnológicos. Eu não acredito que as universidades cumpram a sua missão se forem só isso.  As universidades têm que ser grandes espaços de liberdade, de cidadania, de pensamento divergente, de debate e de participação. Tudo isto tem a ver com inclusão. Uma universidade que seja inclusiva é uma universidade sem medo de tabus, sem aceitar caminhos estreitos ou únicos.  As pessoas com deficiência podem ajudar a desenvolver este espírito de diferença, de humanidade e de participação na Universidade.

NEaD/Unesp - Atualmente, quais são os progressos e limitações das legislações portuguesa e brasileira no que diz respeito a medidas de inclusão no Ensino Superior?

Penso que, tanto em Portugal como no Brasil, estamos sempre entre o “copo meio cheio“ e o “copo meio vazio”. Isto é, dispomos de excelentes experiências, de modelos que funcionaram e levaram a sucessos, e de outras realidades que parecem bem menos estimulantes.  Continua a ser importante que a Universidade se conceba como uma instituição para todos, isto é, que faça tudo o que sabe e o que pode para que todos possam ter sucesso.  Para isso, é preciso criar ambientes inclusivos em que todos os alunos que demonstram dificuldades possam ser apoiados precocemente e com competência. Precisamos ter pessoas com competência nas universidades para ajudar a tornar uma instituição tradicionalmente de elite em uma instituição de ensino superior para todos os que a procuram.  

Por fim, precisamos ter cuidado para não tornar o apoio num gueto. No texto da Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (NH, 2006)não se usa uma única vez a palavra “especial”. Precisamos, sim, criar estruturas adaptadas, flexíveis, adequadas para que, com as suas singularidades, todas as pessoas possam nelas participar, aprender e viver.

 ______________________

1- Organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que aposta em projetos que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância. http://alana.org.br/

 

     No último dia 25 de novembro, aconteceu a entrega do Prêmio Interamericano de Inovações Educativas no Ensino Superior, durante a XXXVI Assembleia Geral da Organização Universitária Interamericana (OUI), realizada na Universidad de Guadalajara, no México. O Núcleo de Educação a Distância (NEaD) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) destacou-se por suas práticas pedagógicas inovadoras e inclusivas, detalhadas no projeto “Acessibilidade e Inclusão no Ensino Superior: Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação e Tecnologia Assistiva”. O projeto foi um dos 11 considerados mais relevantes, entre os 61 apresentados à OUI para concorrer ao prêmio.

                O NEaD/Unesp recebeu menção honrosa, juntamente com outras 7 universidades do México, Costa Rica, Argentina, Bolívia, Chile e Panamá. Somam-se a esses projetos outros três premiados com medalha de ouro  (Université de Montreal – Canadá), prata (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - Brasil) e bronze (Benemérita Universidad Autónoma de Puebla  - México). 

A premiação foi criada para reconhecer as experiências de sucesso das instituições de ensino superior membros da    OUI, relacionadas a inovações educativas e de gestão. As práticas submetidas ao prêmio deveriam estar vigentes, com mais de dois anos de aplicação, bem como apresentar resultados parciais com demonstração de impacto.

 Os professores Klaus Schlünzen Junior, coordenador do NEaD/Unesp, e Elisa Tomoe Moriya Schlünzen, especialista em educação inclusiva, receberam a menção honrosa das mãos do Dr. David Julien, secretário-geral executivo da OUI.  “Este prêmio representa o reconhecimento de um esforço muito grande de toda uma equipe na busca por uma sociedade mais inclusiva”, afirmou o professor.  “Indica também que a Unesp tem um potencial muito grande de transformação e inovação no ensino, além de um papel social cada vez mais representativo em âmbito nacional e internacional”, completou

 Durante a cerimônia, foi lançado o livro Innovación Interamericana en Educación Superior, com artigos de interesse sobre a temática, escritos por especialistas internacionais, além das propostas detalhadas dos premiados. 

 

Professores Klaus Schlünzen Junior, coordenador do NEaD/Unesp, e Elisa Tomoe Moriya Schlünzen, especialista em educação inclusiva, recebem a menção honrosa das mãos do Dr. David Julien, secretário-geral executivo da OUI

 Acesse o livro Innovación Interamericana en Educación Superior

 Saiba mais: 

05/julho/2016 - Homenagem reconhece a excelência das ações do NEaD para tornar o Ensino Superior acessível 

Site da OUI -  Entrega do Prêmio Mein e apresentação do livro sobre práticas inovadoras

 

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